{"id":36745,"date":"2026-04-10T13:54:00","date_gmt":"2026-04-10T13:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kyvo.global\/br\/?p=36745"},"modified":"2026-06-25T14:02:32","modified_gmt":"2026-06-25T14:02:32","slug":"como-o-design-de-todo-dia-marginaliza-os-60-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kyvo.global\/br\/noticias\/como-o-design-de-todo-dia-marginaliza-os-60-no-brasil","title":{"rendered":"Como o design de \u201ctodo dia\u201d marginaliza os 60+ no Brasil"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"36745\" class=\"elementor elementor-36745\" data-elementor-post-type=\"post\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-2a9a15fd elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"2a9a15fd\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-64ed8859\" data-id=\"64ed8859\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-1feda4c0 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"1feda4c0\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4c0c16b elementor-widget elementor-widget-theme-post-title elementor-page-title elementor-widget-heading\" data-id=\"4c0c16b\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-title.default\">\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><strong>Vitor Perez<\/strong><br \/><span style=\"color: #808080;\">Co-fundador da Kyvo, designer com mais de 15 anos de experi\u00eancia trabalhando com solu\u00e7\u00f5es inovadoras focadas no ser humano. P\u00f3s-Graduado em Design Centrado no Usu\u00e1rio pela Universidade Positivo, espe<\/span><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil est\u00e1 envelhecendo, mas boa parte das empresas ainda opera como se o Pa\u00eds continuasse jovem. Essa talvez seja uma das contradi\u00e7\u00f5es mais vis\u00edveis da transforma\u00e7\u00e3o social brasileira nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Enquanto a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica altera o perfil da popula\u00e7\u00e3o, reorganiza o consumo e redefine a demanda por servi\u00e7os, grande parte das jornadas digitais segue sendo concebida a partir de um usu\u00e1rio impl\u00edcito que \u00e9 r\u00e1pido, \u00edntimo da tecnologia, confort\u00e1vel com automa\u00e7\u00f5es e habituado a c\u00f3digos de navega\u00e7\u00e3o que est\u00e3o longe de ser universais. O resultado \u00e9 um desalinhamento cada vez mais evidente entre o mundo real e a l\u00f3gica com que produtos e servi\u00e7os digitais continuam sendo desenhados.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse ponto, cabe um detalhamento: a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e a legisla\u00e7\u00e3o brasileira consideram idosa a pessoa com 60 anos ou mais.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato \u00e9 que esse atual contingente de idosos brasileiros representa um naco relevante na forma\u00e7\u00e3o de riquezas da na\u00e7\u00e3o. Estima-se algo como R$ 1,8 trilh\u00e3o. Portanto, n\u00e3o se trata de um grupo perif\u00e9rico ou residual, mas de uma parcela crescente da popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 ocupa lugar central na vida econ\u00f4mica e social brasileira.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o envelhecimento brasileiro parece n\u00e3o ter sido plenamente incorporado \u00e0 intelig\u00eancia de mercado, ao desenho de servi\u00e7os nem \u00e0 cultura de inova\u00e7\u00e3o das empresas. Em tese, a digitaliza\u00e7\u00e3o deveria ampliar a autonomia, simplificar processos e facilitar o acesso. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, ela frequentemente produz o efeito inverso: torna experi\u00eancias mais opacas, mais r\u00edgidas e mais excludentes para quem n\u00e3o se encaixa no modelo de usu\u00e1rio presumido pelos sistemas. Parte desse descompasso decorre de uma busca hist\u00f3rica dos times de produto por solu\u00e7\u00f5es universais, capazes de atender a todos de forma padronizada, ao mesmo tempo em que ganha for\u00e7a, no debate contempor\u00e2neo, a agenda da hiper personaliza\u00e7\u00e3o \u2013 que reconhece a diversidade de perfis, capacidades e contextos de uso e aponta para a necessidade de experi\u00eancias mais adaptativas e inclusivas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse ponto que a discuss\u00e3o deixa de ser apenas tecnol\u00f3gica e passa a ser tamb\u00e9m social, cultural e pol\u00edtica. Segundo o report\u00a0<em>Antietarismo: Um Convite \u00e0 Comunica\u00e7\u00e3o Inclusiva<\/em>, produzido por Maturi e Febraban, o etarismo, ou age\u00edsmo, \u00e9 uma forma silenciosa de preconceito que afeta diferentes gera\u00e7\u00f5es, mas se torna especialmente cruel com a popula\u00e7\u00e3o 60+, justamente porque empurra esse grupo para um lugar de invisibilidade. O problema n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no modo como os idosos aparecem na publicidade, na comunica\u00e7\u00e3o institucional ou no discurso das marcas. Ele tamb\u00e9m se manifesta quando produtos, interfaces e canais de atendimento s\u00e3o concebidos como se envelhecer fosse uma exce\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda ao padr\u00e3o desej\u00e1vel de consumidor.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o ponto central que ainda custa a amadurecer no debate empresarial: a dificuldade de atender adequadamente a popula\u00e7\u00e3o com 60 anos ou mais n\u00e3o \u00e9 uma simples falha operacional. \u00c9 um problema de inclus\u00e3o. \u00c9 um problema de cidadania. \u00c9, em muitos casos, uma barreira concreta ao exerc\u00edcio de direitos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 luz do Estatuto da Pessoa Idosa e da legisla\u00e7\u00e3o brasileira sobre acessibilidade, n\u00e3o basta que servi\u00e7os estejam formalmente dispon\u00edveis. Eles precisam ser compreens\u00edveis, utiliz\u00e1veis e realmente acess\u00edveis. Em um cotidiano atravessado por aplicativos, autentica\u00e7\u00f5es digitais, centrais remotas, plataformas de compra, agendamentos on-line e autosservi\u00e7o, uma jornada mal desenhada n\u00e3o representa apenas desconforto. Ela pode significar a impossibilidade de acessar sa\u00fade, mobilidade, consumo, informa\u00e7\u00e3o e atendimento. Vale considerar, ainda, que o envelhecimento envolve mudan\u00e7as nos padr\u00f5es cognitivos \u2013 como processamento mais lento, maior necessidade de confirma\u00e7\u00e3o e prefer\u00eancia por sequ\u00eancias mais expl\u00edcitas \u2013 que levam muitas pessoas idosas a construir caminhos de uso diferentes dos previstos pelos sistemas. Ignorar esses modos de pensar e agir n\u00e3o \u00e9 apenas um descuido de design, mas um erro de compreens\u00e3o sobre quem, de fato, est\u00e1 do outro lado da interface.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fric\u00e7\u00e3o aparece, com frequ\u00eancia, no pr\u00f3prio desenho das interfaces. Segundo o estudo\u00a0<em>\u201cThe Impact of UI Design Elements on Cognitive Performance in Elderly Mobile Application Users\u201d<\/em>, publicado no Journal of Emerging Trends and Novel Research, grande parte das aplica\u00e7\u00f5es m\u00f3veis amplamente utilizadas ainda apresenta elementos que dificultam a navega\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios idosos, como bot\u00f5es pequenos, baixo contraste e organiza\u00e7\u00e3o visual pouco expl\u00edcita. Pode parecer detalhe, mas n\u00e3o \u00e9. Quando a experi\u00eancia exige decifra\u00e7\u00e3o constante, a tecnologia deixa de servir ao usu\u00e1rio e passa a exigir que o usu\u00e1rio se adapte a ela.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, nisso tudo, um v\u00edcio recorrente do discurso corporativo sobre inova\u00e7\u00e3o: o de confundir sofistica\u00e7\u00e3o com simplifica\u00e7\u00e3o aparente. Em nome da fluidez, eliminam-se media\u00e7\u00f5es. Em nome da agilidade, condensam-se instru\u00e7\u00f5es. Em nome da efici\u00eancia, automatiza-se tudo. Mas, muitas vezes, o que se chama de simplifica\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas a transfer\u00eancia da complexidade para o usu\u00e1rio. E, quando esse usu\u00e1rio \u00e9 uma pessoa mais velha, a consequ\u00eancia pode ser a exclus\u00e3o silenciosa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As dificuldades n\u00e3o s\u00e3o apenas operacionais. Tamb\u00e9m s\u00e3o f\u00edsicas, sensoriais e operacionais. Segundo o artigo\u00a0<em>\u201cWhat If My Face Gets Scanned Without Consent\u201d<\/em>, sistemas de reconhecimento facial e leitores biom\u00e9tricos apresentam taxas de falha mais elevadas entre idosos. O envelhecimento altera a elasticidade da pele, a textura das digitais, os contornos do rosto e outros elementos que influenciam o desempenho dessas tecnologias. Em vez de promover acesso simplificado, a biometria passa a operar como uma barreira adicional.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de ruptura na experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 irrelevante. Segundo relat\u00f3rio da TrustCloud, empresas podem perder entre 65% e 85% de potenciais clientes durante processos de onboarding digital em raz\u00e3o de fric\u00e7\u00f5es, quebras de confian\u00e7a e aus\u00eancia de suporte em momentos cr\u00edticos. Embora esse dado apare\u00e7a com frequ\u00eancia em discuss\u00f5es sobre servi\u00e7os financeiros, seu racioc\u00ednio vale para praticamente toda a economia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto decisivo \u00e9 a retirada progressiva do atendimento humano. Dados da\u00a0<em>Age UK<\/em>\u00a0mostram como o fechamento de pontos f\u00edsicos e a migra\u00e7\u00e3o acelerada para canais exclusivamente digitais criaram zonas de desassist\u00eancia para a popula\u00e7\u00e3o idosa. Quando o suporte presencial desaparece e o atendimento \u00e9 substitu\u00eddo por fluxos robotizados ou chatbots incapazes de interpretar nuances da d\u00favida humana, o usu\u00e1rio perde sua principal rede de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que adaptar jornadas digitais \u00e0 popula\u00e7\u00e3o com 60 anos ou mais n\u00e3o deveria ser visto como gesto pontual ou paliativo. Trata-se de reconhecer a sociedade tal como ela \u00e9. O estudo \u201cA Estrat\u00e9gia do Ouro Gris\u201c ajuda a explicitar essa invers\u00e3o necess\u00e1ria: muitas organiza\u00e7\u00f5es ainda olham para o envelhecimento como problema, quando deveriam enxerg\u00e1-lo como vari\u00e1vel estrutural do presente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que rever interfaces, ser\u00e1 preciso rever mentalidades. Isso implica abandonar a fic\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio m\u00e9dio e passar a projetar para pessoas reais. Estudos mostram que pequenas altera\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas podem reduzir significativamente erros e abandono de tarefas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim, talvez o verdadeiro teste da maturidade digital das empresas brasileiras n\u00e3o esteja em sua capacidade de adotar a tecnologia mais nova, mas em sua disposi\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-la utiliz\u00e1vel para quem envelhece. Persistir em jornadas digitais excludentes \u00e9 insistir num modelo de desenvolvimento que amplia desigualdades e compromete a relev\u00e2ncia. A popula\u00e7\u00e3o 60+ n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 parte central do presente brasileiro.<\/p>\n<\/div>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto o Brasil envelhece, muitas empresas seguem desenhando experi\u00eancias para um usu\u00e1rio que j\u00e1 n\u00e3o existe. 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