{"id":32652,"date":"2021-08-09T14:41:46","date_gmt":"2021-08-09T14:41:46","guid":{"rendered":"https:\/\/kyvo.global\/br\/?p=32652"},"modified":"2021-08-09T14:41:46","modified_gmt":"2021-08-09T14:41:46","slug":"a-responsabilidade-da-paternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kyvo.global\/br\/insights\/a-responsabilidade-da-paternidade","title":{"rendered":"A responsabilidade da paternidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos \u00faltimos anos, felizmente, a sociedade discute cada vez mais o tema da parentalidade. As licen\u00e7as parentais de seis meses para as m\u00e3es e de 20 dias para os pais, aos poucos, tornam-se mais frequentes. O mesmo vale para benef\u00edcios como aux\u00edlio-creche e maior flexibilidade para home-office. Ainda assim, estamos a anos luz do que dever\u00edamos proporcionar \u00e0s fam\u00edlias. E como estamos em tempos de dia dos pais, um ponto de aten\u00e7\u00e3o: <strong>o pai precisa assumir seu papel na discuss\u00e3o de qualquer pol\u00edtica que promova a igualdade de g\u00eanero, seja nas empresas ou no setor p\u00fablico.<\/strong> E tomadores de decis\u00e3o, por sua vez, precisam entrar de cabe\u00e7a neste di\u00e1logo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto editor da revista GQ, reconhecida dentro e fora do pa\u00eds como uma refer\u00eancia para o p\u00fablico masculino, acompanhei com frequ\u00eancia o tema. Neste meio tempo tamb\u00e9m tive dois filhos, o que naturalmente me fez refletir ainda mais sobre.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">Miguel, meu filho mais velho, hoje com 5 anos, nasceu na madrugada de uma quinta-feira. N\u00e3o fosse a compreens\u00e3o dos meus chefes, voltaria a trabalhar na ter\u00e7a-feira seguinte, afinal, a pol\u00edtica de Recursos Humanos da editora previa apenas uma licen\u00e7a paternidade de cinco dias corridos, o b\u00e1sico da nossa legisla\u00e7\u00e3o. Voltei ap\u00f3s 20 dias, com a certeza de que deveria ter ficado ao menos mais dez dias em casa. Ainda assim, ao sair de casa para o trabalho, recebi da minha companheira uma foto do Miguel beb\u00ea junto com uma das declara\u00e7\u00f5es mais bonitas que j\u00e1 me escreveram: &#8220;obrigado por cuidar t\u00e3o bem de n\u00f3s nestes dias, foi s\u00f3 um gostinho do que iremos viver&#8221;, dizia um trecho da mensagem.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quem assinou a carta: minha companheira, que tamb\u00e9m \u00e9 executiva de uma multinacional com mais de 8 mil funcion\u00e1rios, at\u00e9 ent\u00e3o m\u00e3e de primeira viagem e que encarava de frente a montanha-russa emocional do puerp\u00e9rio. Por sorte, tivemos e ainda temos o privil\u00e9gio de contar com uma rede familiar bem estabelecida e pr\u00f3xima, o que facilitou muito essa transi\u00e7\u00e3o. Ao menos esta primeira transi\u00e7\u00e3o, pois, para mim, a chegada aos quatro ou seis meses de vida do beb\u00ea representa um desafio enorme para as fam\u00edlias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No meu caso, a minha companheira teve seis meses de licen\u00e7a maternidade ap\u00f3s o nascimento do Miguel e tamb\u00e9m da Helo\u00edsa, a nossa segunda filha. Tempo em que o amor e carinho da m\u00e3e s\u00e3o insubstitu\u00edveis. Ao pai, cabe aprofundar o v\u00ednculo com o beb\u00ea e garantir que a m\u00e3e tenha as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsica e emocional que o per\u00edodo requer. Isso significa acordar nas madrugadas, organizar o funcionamento da casa, entre diversas outras tarefas. Fun\u00e7\u00f5es que parecem acess\u00f3rias, mas que fazem uma enorme diferen\u00e7a para o casal.\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s o fim da licen\u00e7a, acredito, \u00e9 quando n\u00f3s pais dever\u00edamos assumir um maior protagonismo para permitir que o retorno da m\u00e3e ao trabalho n\u00e3o signifique uma ruptura dr\u00e1stica para o beb\u00ea. Para isso, \u00e9 preciso abra\u00e7ar a causa da parentalidade, colocando o beb\u00ea no centro das aten\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que \u00e9 ponto inconteste que o primeiro ano de vida de uma crian\u00e7a diz muito sobre seu desenvolvimento cognitivo e emocional.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E por que digo dever\u00edamos? Porque, al\u00e9m da dificuldade do pai de se assumir neste lugar, s\u00e3o rar\u00edssimas as empresas que d\u00e3o a possibilidade de uma segunda licen\u00e7a paternidade ao longo do primeiro ano da crian\u00e7a. A transi\u00e7\u00e3o da volta ao trabalho de uma m\u00e3e em processo de desaleitamento materno \u00e9 dific\u00edlima de ser compensada com bab\u00e1s, creches ou mesmo av\u00f3s. O mais capaz de tentar contornar este v\u00e1cuo \u00e9 o pai. <strong>S\u00f3 neste ponto j\u00e1 criamos uma desigualdade brutal de g\u00eaneros.\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando falo que s\u00e3o raras as empresas que est\u00e3o comprometidas com a parentalidade de maneira ampla, n\u00e3o se trata de achismo. Enquanto editor da GQ, em duas edi\u00e7\u00f5es especiais de Dia dos Pais coordenei a produ\u00e7\u00e3o de um ranking com as melhores empresas para ser pai no Brasil. Descobri, logo na largada, que nenhuma consultoria especializada em ambiente de trabalho nas empresas se debru\u00e7a de fato sobre o tema. O levantamento da GQ Brasil, nas duas edi\u00e7\u00f5es em que foi publicado, foi realizado na unha, consultando os principais especialistas de recursos humanos do pa\u00eds e pedindo a eles indica\u00e7\u00f5es de bons cases. A maioria esmagadora, infelizmente, se gabava de dar 20 dias de licen\u00e7a paternidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O al\u00edvio foi encontrar empresas com at\u00e9 seis meses de licen\u00e7a-paternidade, podendo se dividir a mesma em mais de um per\u00edodo ao longo do primeiro ano de vida do beb\u00ea. Algumas das que se destacaram foram Facebook, IBM, Google, Twitter e Spotify. As pol\u00edticas parentais destas empresas s\u00e3o o que h\u00e1 de mais pr\u00f3ximo das legisla\u00e7\u00f5es de pa\u00edses n\u00f3rdicos, refer\u00eancias no assunto. Na Su\u00e9cia, o casal tem direito a um ano e meio de licen\u00e7a parental e pode decidir como dividir o per\u00edodo da forma que lhe for mais conveniente. Se a mulher \u00e9 a respons\u00e1vel pela maior parte dos rendimentos do casal, o pai assume. Nada mais justo. Dinamarca e Noruega v\u00e3o na mesma linha.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">Ao olhar com mais aten\u00e7\u00e3o para o papel do pai, a busca pela promo\u00e7\u00e3o da equidade de g\u00eanero fica mais f\u00e1cil para a empresa. O caminho, contudo, ainda \u00e9 longo. Atualmente, 90 pa\u00edses no mundo prev\u00eaem licen\u00e7a-paternidade remunerada. \u00c9 menos da metade. E menos de 40% das empresas contam com licen\u00e7as al\u00e9m do per\u00edodo estabelecido pela legisla\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por outro lado, ao proporcionar mais espa\u00e7o para o pai ser de fato pai, os resultados s\u00e3o bem animadores. Uma pesquisa recente realizada pela McKinsey com mais de 130 pais de primeira viagem, de dez pa\u00edses, e que contaram com licen\u00e7a-paternidade estendida, mostra que 90% deles afirmaram notar uma melhora no relacionamento conjugal, e 60% disseram estarem mais felizes e que isso se reflete em seus desempenhos no trabalho. Apenas 20% se colocaram numa posi\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a em suas empresas pelo fato de usufru\u00edrem do benef\u00edcio.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pandemia escancarou as diferen\u00e7as de g\u00eaneros de quem tem filhos. Pude ver ao longo do \u00faltimo ano e meio como as crian\u00e7as aqui em casa demandam mais a m\u00e3e do que o pai. Entre intervir na reuni\u00e3o online da m\u00e3e ou do pai, \u00e9 certo que v\u00e3o na primeira op\u00e7\u00e3o. Mas se queremos mais diversidade nas empresas e no setor p\u00fablico, \u00e9 preciso proporcionar condi\u00e7\u00f5es para pais mais presentes em casa. Sem isso o jogo vai ser sempre desigual.<\/span><\/p>\n<h5>____________________________________<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">*Guilherme Manechini \u00e9 jornalista e s\u00f3cio da Kyvo Design-Driven Innovation<\/span><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, felizmente, a sociedade discute cada vez mais o tema da parentalidade. As licen\u00e7as parentais de seis meses para as m\u00e3es e de 20 dias para os pais, aos poucos, tornam-se mais frequentes. O mesmo vale para benef\u00edcios como aux\u00edlio-creche e maior flexibilidade para home-office. 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