{"id":32530,"date":"2021-04-02T00:00:41","date_gmt":"2021-04-02T00:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/kyvo.global\/br\/?p=32530"},"modified":"2021-05-03T12:33:06","modified_gmt":"2021-05-03T12:33:06","slug":"olhar-antropologico-como-as-ciencias-sociais-tem-sido-fundamentais-no-desenvolvimento-do-ecossistema-de-inovacao-no-brasil-e-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kyvo.global\/br\/insights\/olhar-antropologico-como-as-ciencias-sociais-tem-sido-fundamentais-no-desenvolvimento-do-ecossistema-de-inovacao-no-brasil-e-no-mundo","title":{"rendered":"Olhar antropol\u00f3gico: como as ci\u00eancias sociais t\u00eam sido fundamentais no desenvolvimento do ecossistema de inova\u00e7\u00e3o no Brasil e no mundo"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que mulheres enfrentam in\u00fameras barreiras em suas trajet\u00f3rias profissionais.<\/p>\n<p>J\u00e1 sentimos na pele a falta de espa\u00e7o e oportunidades de ascens\u00e3o profissional em diversas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o e, mais recentemente, lidamos com esse desequil\u00edbrio no mercado de tecnologia com 90% da participa\u00e7\u00e3o masculina. Em meio a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21 nos deparamos com estat\u00edsticas semelhantes no mercado de inova\u00e7\u00e3o, quando temos levantamentos recentes que apontam que o setor esbarra na n\u00e3o inclus\u00e3o de mulheres e na\u00a0falta de diversidade dentro das\u00a0<a href=\"https:\/\/startupi.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">startups,<\/a>\u00a0como reflexo do que j\u00e1 acontece h\u00e1 d\u00e9cadas nas grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pelo recorte da antropologia, no entanto, at\u00e9 mesmo na academia j\u00e1 nos deparamos com a falta de oferta e disponibilidade de empregos para pesquisadoras (sendo a maioria de mulheres na antropologia). \u00c9 uma realidade tamb\u00e9m no meio acad\u00eamico a dificuldade que antrop\u00f3logas encontram para performar e desenvolver suas habilidades, projetos, pesquisas, articula\u00e7\u00f5es, etc. Senti isso na pele por alguns anos e, l\u00e1 nos idos dos anos 2010 migrei para o mercado corporativo quando vi oportunidades de trabalhar com pesquisa para o mercado corporativo por meio do design de servi\u00e7o.<\/p>\n<h2><em><span style=\"font-family: Merriweather, serif; color: purple;\"><b>Mulheres na antropologia<\/b><\/span><\/em><\/h2>\n<p>Historicamente foram as ci\u00eancias sociais que impulsionaram o ingresso das mulheres na \u00e1rea de humanas, ainda na d\u00e9cada de 30, motivado pelas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es do movimento feminista chegando ao Brasil. Mais especificamente na antropologia, o n\u00famero de mulheres \u00e9 maior por motivos culturais, como afirmou a Miriam Grossi, antrop\u00f3loga e representante das ci\u00eancias humanas na Capes, em artigo cient\u00edfico na Revista Com Ci\u00eancia (2003). Ela destaca que os m\u00e9todos da antropologia abordam a subjetividade, sentimentos, rela\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos e seus pares e com o meio em que vivem; tratam de m\u00e9todos de observa\u00e7\u00e3o, de alteridade e de escuta \u2013 valores delegados ao feminino pela cultura ocidental.\u00a0 \u201cUm antrop\u00f3logo s\u00f3 far\u00e1 uma boa antropologia se ele for capaz de elaborar, de registrar seus sentimentos. \u00c9 um treinamento de reflexibilidade, que \u00e9 um valor atribu\u00eddo ao feminino\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso ent\u00e3o que \u00e9 costume dizer que esse olhar sist\u00eamico que a antropologia e a pesquisa etnogr\u00e1fica exigem, \u00e9 muito mais atribu\u00eddo e tem mais afinidade ao feminino. E s\u00e3o essas caracter\u00edsticas que potencializam a inova\u00e7\u00e3o, uma vez que em geral, culturalmente, mulheres s\u00e3o mais aptas a acolher diferentes pontos de vista, gerar e amplificar maior senso coletivo, etc. Desempenhamos melhor, por meio da constru\u00e7\u00e3o social dos pap\u00e9is de g\u00eanero, as atribui\u00e7\u00f5es de observa\u00e7\u00e3o, escuta, identifica\u00e7\u00e3o e apelo maior ao emocional que o racional; subjetividades inerentes \u00e0 pr\u00e1tica da pesquisa.<\/p>\n<p>Tenho sido intensamente procurada por muitos pesquisadores, em sua maioria antrop\u00f3logas, que chegam com muito interesse em explorar o campo da pesquisa no mercado de inova\u00e7\u00e3o.\u00a0 Consultorias, est\u00fadios e empresas de inova\u00e7\u00e3o t\u00eam mostrado uma crescente presen\u00e7a de mulheres em seus times de pesquisa. Tem a ver com o pr\u00f3prio m\u00e9todo que \u00e9 de escuta. Como personalidade marcante no mundo acad\u00eamico \u2013 embora os principais autores e refer\u00eancias sejam homens, tem muita mulher na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da antropologia, cerca de 70% era de mulheres formadas em antropologia em 2002,\u00a0segundo dados da UfsCar.<\/p>\n<h2><em><span style=\"font-family: Merriweather, serif; color: purple;\"><b>A pesquisa no meio corporativo<\/b><\/span><\/em><\/h2>\n<p>H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada que temos testemunhado o aumento da participa\u00e7\u00e3o de antrop\u00f3logos no mercado e empresas de inova\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que j\u00e1 mostrava em 2015\u00a0um artigo da EPIC\u00a0(The Ethnographic Praxis in Industry) sobre o reconhecimento da aplica\u00e7\u00e3o da antropologia nos neg\u00f3cios a partir da publica\u00e7\u00e3o de artigos na imprensa popular tais como:\u00a0 \u201cAnthropology, Inc.\u201d (The Atlantic), \u201cBill Gates as Anthropologist\u201d (New York Times 2005, comentando um artigo na Fortune Small Business, \u201cPigmy Hunters\u201d) ou \u201cAn Anthropologist Walks into a Bar\u201d (Harvard Business Review). Houve, portanto, um consenso geral mercadol\u00f3gico de que a antropologia n\u00e3o estava mais confinada ao estudo dos povos ind\u00edgenas, quilombolas e outros. A disciplina passou a ser vista como uma ferramenta para o avan\u00e7o das empresas comerciais. \u201cO que antes era uma especializa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica guiada pelas hierarquias patrimoniais do mundo acad\u00eamico est\u00e1 agora no mercado e na pra\u00e7a p\u00fablica, com v\u00e1rios profissionais de pesquisa se identificando como antrop\u00f3logos ou etn\u00f3grafos\u201d. O artigo discorre ainda sobre a participa\u00e7\u00e3o e qualidade da comunidade de antrop\u00f3logos atuando no mercado corporativo.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 not\u00e1vel que a presen\u00e7a de antrop\u00f3logos atuando no mercado de inova\u00e7\u00e3o vem crescendo. A Sensorama, fundada e dirigida por Luisa Nogueira, \u00e9 um exemplo de lideran\u00e7a e composi\u00e7\u00e3o de time com maioria de mulheres e que amplifica a diversidade com profissionais de diferentes identidades de g\u00eanero. A Mutato, ag\u00eancia de publicidade, no meio do ano passado, incubou a consultoria Indique uma preta \u2013 grupo criado em 2016 pelas fundadoras Amanda Abreu, Daniele Mattos e Ver\u00f4nica Dudiman, para ampliar o acesso de mulheres negras ao mercado de trabalho. \u00c9 tamb\u00e9m um forte exemplo de estrat\u00e9gia de inova\u00e7\u00e3o com um bra\u00e7o de consultoria que opera com diversidade, tamb\u00e9m com recorte de ra\u00e7a; bem como a pr\u00f3pria Kyvo que atualmente possui maioria de mulheres no time, desempenhando fun\u00e7\u00f5es protagonistas em projetos, coordena\u00e7\u00e3o, estrat\u00e9gias de neg\u00f3cio e comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mercado corporativo brasileiro \u00e9 um terreno f\u00e9rtil demais para a antropologia, mais especificamente para a pesquisa etnogr\u00e1fica. Grandes corpora\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m despontaram em contrata\u00e7\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es de antrop\u00f3logas em seus times internos, tais como a Porto Seguro, Ambev, Banco Carrefour, Fiat, etc. Efeito causado pela inclus\u00e3o de profissionais da etnografia e antrop\u00f3logos do consumo em meados dos anos 2000, quando muitas empresas reconheceram as an\u00e1lises de tend\u00eancias e comportamentos do consumidor de forma mais ampla e frequente.<\/p>\n<h2><em><span style=\"font-family: Merriweather, serif; color: purple;\"><b>Lideran\u00e7a e comunidade global<\/b><\/span><\/em><\/h2>\n<p>Globalmente a comunidade de antrop\u00f3logos conta com o apoio da\u00a0EPIC People, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos dirigida por volunt\u00e1rios e apoiada por membros e patrocinadores \u2013 que promove a pr\u00e1tica da etnografia para criar e gerar valor na ind\u00fastria, organiza\u00e7\u00f5es e comunidades. Em outubro de 2020 eu fui convidada a compor o board estrat\u00e9gico da EPIC, como representante da comunidade brasileira e latinoamericana de antropologia, com o intuito de engajar profissionais, conectar e desenvolver conhecimento e pr\u00e1ticas da antropologia no mercado corporativo.<\/p>\n<p>Essa conquista n\u00e3o deixa de ser um refor\u00e7o de que mulheres est\u00e3o avan\u00e7ando e ganhando espa\u00e7o nas lideran\u00e7as estrat\u00e9gicas de entidades e organiza\u00e7\u00f5es globais alinhadas \u00e0 inova\u00e7\u00e3o. Ser nomeada representante da comunidade de antropologia na Am\u00e9rica Latina \u00e9 o passe valioso para desempenhar essa fun\u00e7\u00e3o sem me desviar do caminho pela diversidade e pelo rompimento de paradigmas e estere\u00f3tipos dos campos acad\u00eamico e mercadol\u00f3gico.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas estou coordenando de forma colaborativa um grupo multidisciplinar de profissionais que atuam com design, etnografia, pesquisa, comunica\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e an\u00e1lise de dados, inova\u00e7\u00e3o, tecnologia, sociologia, etc. para projetar o trabalho de articular esse ecossistema com protagonismo e diversidade. As ci\u00eancias sociais s\u00e3o o maior legado do conhecimento antropol\u00f3gico e \u00e9 a partir delas que conseguiremos enfim desenhar o t\u00e3o novo mundo que h\u00e1 tempos estamos desejando viver e cohabitar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Carol Zatorre \u00e9 antrop\u00f3loga, com experi\u00eancia em projetos de pesquisa em interface com equipes de design. Professora de Pesquisa em Design na P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de Design Centrado no Usu\u00e1rio na Universidade Positivo e desde 2015 atua como Head de Pesquisa na Kyvo Design-Driven Innovation onde \u00e9 co-fundadora. Desde 2020 \u00e9 membro e representante do corpo diretivo da EPIC People \u2013 uma comunidade global de profissionais que fazem etnografia para impactar neg\u00f3cios e organiza\u00e7\u00f5es com o intuito de engajar a comunidade brasileira e latinoamericana de antrop\u00f3logos.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que mulheres enfrentam in\u00fameras barreiras em suas trajet\u00f3rias profissionais. J\u00e1 sentimos na pele a falta de espa\u00e7o e oportunidades de ascens\u00e3o profissional em diversas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o e, mais recentemente, lidamos com esse desequil\u00edbrio no mercado de tecnologia com 90% da participa\u00e7\u00e3o masculina. 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