{"id":32513,"date":"2021-04-30T00:01:00","date_gmt":"2021-04-30T00:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kyvo.global\/br\/?p=32513"},"modified":"2021-06-23T15:12:44","modified_gmt":"2021-06-23T15:12:44","slug":"a-ciencia-por-tras-do-jazz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kyvo.global\/br\/insights\/a-ciencia-por-tras-do-jazz","title":{"rendered":"A ci\u00eancia por tr\u00e1s do Jazz"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-weight: 400\">Ilustra\u00e7\u00e3o do artista: <\/span><a href=\"http:\/\/www.leroyneiman.com\/\"><span style=\"font-weight: 400\">LeRoy Neiman<\/span><\/a><\/em><\/p>\n<p><b>Para ler ouvindo: <\/b><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/6749W6PUbhZp7901Uh4fqy?si=f23755923486481e\"><b>Top 10 Jazz na Rua<\/b><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sou apaixonado por jazz. Nem lembro como isso come\u00e7ou na minha vida, porque n\u00e3o sou daquelas pessoas que cresceram em uma fam\u00edlia super musical nem nada\u2026 mas sei que em algum ponto da minha trajet\u00f3ria, eu fui fisgado por n\u00e3o somente curtir a m\u00fasica, mas me envolver com os artistas independentes que tocavam jazz na minha cidade; pesquisar sobre os diferentes estilos do g\u00eanero, seja na musicalidade ou na dan\u00e7a, conhecer os \u00e1lbuns cl\u00e1ssicos, a hist\u00f3ria de vida dos m\u00fasicos e cantoras\u2026 tudo! Meu interesse s\u00f3 aumentou quando comecei a estudar mais a fundo os processos criativos \u00e0 luz das neuroci\u00eancias, pois existem muitos estudos cient\u00edficos intrigantes sobre como a m\u00fasica, e particularmente, o jazz, \u00e9 trabalhado em nosso c\u00e9rebro. Ent\u00e3o, em comemora\u00e7\u00e3o ao<\/span><b> Dia Internacional do Jazz<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, vou compartilhar algumas coisas que tenho aprendido nesta jornada.<\/span><\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><em><span style=\"font-family: Merriweather, serif;color: purple\"><b>Humanos amam m\u00fasica<\/b><\/span><\/em><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda que n\u00e3o exista uma indica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u00f3bvia do porqu\u00ea isso acontece, uma <\/span><a href=\"https:\/\/www.jneurosci.org\/content\/early\/2021\/03\/19\/JNEUROSCI.0727-20.2020\"><span style=\"font-weight: 400\">nova pesquisa publicada no Journal of Neuroscience<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, a raz\u00e3o pela qual temos tanta conex\u00e3o com a m\u00fasica \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o entre os circuitos cerebrais audit\u00f3rios e de recompensa. No estudo, quando o circuito de recompensa era provocado antes de se ouvir m\u00fasica, os participantes sentiram maior prazer; enquanto na situa\u00e7\u00e3o inversa, quando o circuito de recompensa era inibido, o prazer dos participantes diminuiu. Essas mudan\u00e7as induzidas no prazer dos indiv\u00edduos foram ligadas \u00e0 mudan\u00e7as na atividade cerebral no n\u00facleo accumbens, uma regi\u00e3o chave da via de recompensa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, existe o aspecto da repeti\u00e7\u00e3o na m\u00fasica. <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1lo8EomDrwA\"><span style=\"font-weight: 400\">Neste v\u00eddeo-anima\u00e7\u00e3o do TED Ed<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, a educadora Elizabeth Hellmuth Margulis nos explica de forma bem did\u00e1tica o chamado &#8220;efeito exposi\u00e7\u00e3o&#8221;, ou seja, como a repeti\u00e7\u00e3o na m\u00fasica nos convida a ser participantes ativos ao inv\u00e9s de apenas ouvintes passivos. \u00c0 medida que as tecnologias de leitura das atividades cerebrais evoluem, novos estudos s\u00e3o publicados semanalmente com o objetivo de compreender mais a fundo como o ser humano opera, como o artigo <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3389\/fncom.2019.00098\"><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;A Estrutura Musical do Tempo no C\u00e9rebro: Repeti\u00e7\u00e3o, Ritmo e Harmonia&#8221;<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, publicado em Janeiro de 2020, por Dan Lloyd, do Trinity College em Hartford nos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>A raz\u00e3o pela qual temos tanta conex\u00e3o com a m\u00fasica \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o entre os circuitos cerebrais audit\u00f3rios e de recompensa.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h2><\/h2>\n<h2><em><span style=\"font-family: Merriweather, serif;color: purple\"><b>Improviso no Jazz<\/b><\/span><\/em><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 alguns anos, assisti a <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=U4k5JFmahVY\"><span style=\"font-weight: 400\">esse TED Talk<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> do Dr. Charles Limb, m\u00fasico e neurocientista na Universidade da Calif\u00f3rnia, em S\u00e3o Francisco (EUA), na qual compartilha um estudo bem interessante realizado em 2008: ele colocou um jazzista tocando uma m\u00fasica memorizada e depois improvisando sobre ela para entender a diferen\u00e7a na ativa\u00e7\u00e3o neural. Os resultados s\u00e3o fascinantes! O c\u00e9rebro na execu\u00e7\u00e3o de uma atividade de mem\u00f3ria \u00e9 muito mais ativo no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal (raiz da consci\u00eancia, compreens\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia, planejamento intencional e o auto-monitoramento consciente); por\u00e9m, quando o c\u00e9rebro come\u00e7a a improvisar, h\u00e1 uma supress\u00e3o do controle inibit\u00f3rio, e n\u00e3o h\u00e1 mais ativa\u00e7\u00e3o do auto-monitoramento consciente, para que haja a promo\u00e7\u00e3o de novos fluxos de ideias. Enquanto isso, h\u00e1 a ativa\u00e7\u00e3o do c\u00f3rtex prefrontal medial, a regi\u00e3o autobiogr\u00e1fica do c\u00e9rebro, ou seja, nas palavras do Dr. Limb, &#8220;a pessoa est\u00e1 narrando sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria musical sem as inibi\u00e7\u00f5es comuns&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando analisamos a performance de m\u00fasicos de Jazz, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o surgir a pergunta: \u201cComo eles fazem isso? Como ocorre o improviso!?\u201d Por\u00e9m, essa \u00e9 uma caracter\u00edstica que n\u00e3o \u00e9 restrita aos m\u00fasicos. Todo ser humano atua por meio do improviso em diferentes situa\u00e7\u00f5es da vida. N\u00f3s temos a capacidade de criar in\u00fameras combina\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es a partir dos mesmos elementos. \u201cAnimais (e nesse caso, o c\u00e9rebro humano) s\u00e3o muito bons em uma coisa: identificar padr\u00f5es. O modo como sobrevivemos at\u00e9 hoje \u00e9 encontrando regularidade em meio ao caos, entendendo que h\u00e1 uma predictabilidade naquilo. E isso nos d\u00e1 toda uma base para entender como nos relacionamos com timing, com a capacidade de extrair um padr\u00e3o e encontrar algum sentido naquilo\u201d, afirma Limb.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>N\u00f3s temos a capacidade de criar in\u00fameras combina\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es a partir dos mesmos elementos.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As neuroci\u00eancias j\u00e1 comprovaram que aquela hist\u00f3ria de que n\u00e3o existem pessoas que usam mais o lado direito ou esquerdo do c\u00e9rebro e que a criatividade ocorre em processos complexos e integrados em todo o c\u00e9rebro. Mas at\u00e9 hoje existem estudos bem recentes que ampliam o entendimento de como os processos criativos ocorrem, por exemplo, <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.neuroimage.2020.116632\"><span style=\"font-weight: 400\">este<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> publicado em Junho de 2020 por David Rosen e John Kounios, do laborat\u00f3rio de pesquisa em Criatividade da Universidade de Drexel (Pensilv\u00e2nia, EUA). Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de guitarristas de jazz durante o improviso e descobriram que, quando se tratava de m\u00fasicos experientes em improvisa\u00e7\u00e3o, diversas \u00e1reas do hemisf\u00e9rio esquerdo eram ativadas, em compara\u00e7\u00e3o com os m\u00fasicos menos experientes no improviso. O estudo \u00e9 bem denso e levanta quest\u00f5es importantes sobre como se define e compreende a criatividade, pois se \u00e9 analisada a partir do valor de seu resultado (o produto do processo criativo), ent\u00e3o o hemisf\u00e9rio esquerdo desempenha um papel fundamental. &#8220;Contudo, se a criatividade \u00e9 compreendida como uma habilidade de lidar com situa\u00e7\u00f5es novas, n\u00e3o familiares, como \u00e9 o caso dos improvisadores mais inexperientes, ent\u00e3o, o hemisf\u00e9rio direito \u00e9 o protagonista&#8221;, afirma Kounios.<\/span><\/p>\n<h2><em><span style=\"font-family: Merriweather, serif;color: purple\"><b>Encontrando o groove<\/b><\/span><\/em><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao conversar com m\u00fasicos de jazz, \u00e9 comum ouvi-los compartilhar sobre uma experi\u00eancia que ocorre quando alcan\u00e7am um sentimento de plena satisfa\u00e7\u00e3o e absor\u00e7\u00e3o enquanto est\u00e3o performando musicalmente. O que chamamos de &#8220;flow&#8221; n\u00e3o \u00e9 restrito apenas a jazzistas, mas a todo indiv\u00edduo que se aplica na cria\u00e7\u00e3o de algo \u00fanico e singular; sendo caracterizado como um estado sem autoconsci\u00eancia, d\u00favida ou ansiedade, um fen\u00f4meno psicol\u00f3gico que s\u00f3 recentemente os cientistas come\u00e7aram a entender.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um <\/span><a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/10.1177\/2059204321989529\"><span style=\"font-weight: 400\">estudo bem recente<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> publicado no Jornal de M\u00fasica &amp; Ci\u00eancia da Universidade de Londres explorou dois tra\u00e7os n\u00e3o-cognitivos que podem determinar como se d\u00e1 esse processo no c\u00e9rebro humano: a garra, definida como a perseveran\u00e7a e paix\u00e3o para objetivos a longo prazo; e o desenvolvimento, a cren\u00e7a de que habilidades como intelig\u00eancia e talento podem ser aprimoradas por meio do esfor\u00e7o. A experi\u00eancia de flow foi correlacionada pelos m\u00fasicos com sua garra e n\u00e3o com seu modelo mental de desenvolvimento. Os autores sugerem que isso pode ser resultado de cren\u00e7as culturais sobre o quanto a habilidade de uma pessoa \u00e9 natural ou resultado de treinamento.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>O que chamamos de &#8220;flow&#8221; n\u00e3o \u00e9 restrito apenas a jazzistas, mas a todo indiv\u00edduo que se aplica na cria\u00e7\u00e3o de algo \u00fanico e singular.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">&#8212;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cada novo estudo que encontro sobre o tema, fico mais apaixonado pela capacidade cognitiva e a complexidade do ser humano. \u00c9 incr\u00edvel perceber como somos completamente influenciados pela m\u00fasica em nosso dia a dia. Se voc\u00ea se interessou por toda essa discuss\u00e3o, creio que vai curtir tamb\u00e9m o <\/span><a href=\"https:\/\/ge-neurocriatividade.medium.com\/criatividade-e-problemas-complexos-af741e5930a0\"><span style=\"font-weight: 400\">primeiro material produzido pelo Grupo de Estudos em Neuroci\u00eancias &amp; Criatividade<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> que tenho o prazer de mediar e co-criar conhecimentos.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Lessak \u00e9 especialista em Human-Centered Design e co-fundador da Kyvo, onde atua como Designer Estrat\u00e9gico no Labs, frente de estrutura\u00e7\u00e3o de futuros neg\u00f3cios, parcerias e programas da companhia. Hoje, aprofunda seus conhecimentos em Neuroci\u00eancias da Aprendizagem, com foco nos processos cognitivos da criatividade. Al\u00e9m de mediar um grupo de estudos independente sobre Neuroci\u00eancias &amp; Criatividade, tamb\u00e9m est\u00e1 envolvido ativamente na lideran\u00e7a de iniciativas locais de fomento ao ecossistema de inova\u00e7\u00e3o (Service Design Network, World Creativity Day e Global Service Jam).<\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilustra\u00e7\u00e3o do artista: LeRoy Neiman Para ler ouvindo: Top 10 Jazz na Rua Sou apaixonado por jazz. Nem lembro como isso come\u00e7ou na minha vida, porque n\u00e3o sou daquelas pessoas que cresceram em uma fam\u00edlia super musical nem nada\u2026 mas sei que em algum ponto da minha trajet\u00f3ria, eu fui fisgado por n\u00e3o somente curtir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":32517,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"single-insights.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[111],"tags":[199,206,207,200],"class_list":["post-32513","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-insights","tag-criatividade","tag-jazz","tag-musica","tag-neurociencias","cat-111-id"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32513"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32562,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32513\/revisions\/32562"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32517"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/kyvo.global\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}