{"id":32347,"date":"2020-07-28T14:16:50","date_gmt":"2020-07-28T14:16:50","guid":{"rendered":"https:\/\/kyvo.global\/br\/?p=32347"},"modified":"2021-05-03T12:21:37","modified_gmt":"2021-05-03T12:21:37","slug":"alteridade-para-um-design-inclusivo-por-carol-zatorre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kyvo.global\/br\/insights\/alteridade-para-um-design-inclusivo-por-carol-zatorre","title":{"rendered":"Alteridade para um design inclusivo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Empatia \u00e9 palavra da moda, mas, como diria Bela Gil: \u201cvoc\u00ea j\u00e1 pensou em substituir empatia por alteridade? Quando a gente discute pesquisa em design, no contexto de processos de inova\u00e7\u00e3o, \u00e9 indispens\u00e1vel considerarmos a diversidade dos interlocutores como o ponto de partida; pois, talvez nem mesmo a estrat\u00e9gia de usu\u00e1rios extremos d\u00ea conta de mapear com \u201ccertezas\u201d o grupo a ser pesquisado. Quando o design se diz centrado no ser humano, como antrop\u00f3loga, eu vou um pouco al\u00e9m, digo que o conceito de humanidade \u00e9 diverso, sendo assim seria mais correto dizer centrado em SERES HUMANOS e em seus contextos sociais. E ainda, se tomarmos o design pelo aspecto de uma disciplina constitu\u00edda para justamente estabelecer conex\u00e3o com o usu\u00e1rio (pessoas), \u00e9 por meio da pesquisa que atribu\u00edmos o entendimento dos reais problemas e das reais necessidades das pessoas para se projetar algo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Don Norman, o pai da usabilidade e pioneiro do design centrado no ser humano, <\/span><a href=\"https:\/\/xd.adobe.com\/ideas\/perspectives\/leadership-insights\/why-i-dont-believe-in-empathic-design-don-norman\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">destacou em artigo recente seu inc\u00f4modo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 busca obsessiva pela empatia<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> desconectada da realidade, dos problemas reais das pessoas. Ele explica porque n\u00e3o acredita em design emp\u00e1tico e a pergunta que faz \u00e9: como \u00e9 poss\u00edvel ter empatia por uma realidade desconhecida? Ele endossa, justamente, o papel primordial da pesquisa, do trabalho de antrop\u00f3logos e pesquisadores de design no processo de cria\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es em servi\u00e7os e produtos para garantir funcionalidade para a popula\u00e7\u00e3o com a qual nos preocupamos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2016, eu j\u00e1 estava <\/span><a href=\"https:\/\/medium.com\/@carolzatorre\/empatia-e-alteridade-2644a4fa8c80\"><span style=\"font-weight: 400;\">questionando a fragilidade da empatia em contexto de projeto<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; devido a minha forma\u00e7\u00e3o, &#8211; onde questionamos todos os aspectos de uma rela\u00e7\u00e3o de pesquisa: assimetria entre pesquisador e pesquisado, o aspecto do choque de culturas, o que um diz e o outro entende\u2026 Somos n\u00f3s antrop\u00f3logos que aprendemos a \u201ctestemunhar outras humanidades\u201d (DA MATTA, 1992, p. 58) e \u201capregoar o an\u00f4malo\u201d, ou melhor dizendo: divulgar, anunciar aquele que \u00e9 diferente.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">A alteridade acontece por meio de uma pr\u00e1tica anal\u00edtica; \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o, um trabalho, um exerc\u00edcio mesmo. J\u00e1 a empatia \u00e9 algo inerente ao ser humano que vive em sociedade e respeita os demais.<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sob o ponto de vista da neuroci\u00eancia, por exemplo, em um papo com o Lessak, vemos que a empatia ocorre no c\u00e9rebro como uma rea\u00e7\u00e3o (sistema sensorial) dos chamados neur\u00f4nios espelho. Ocorre, portanto, de forma natural e inerente ao ser humano quando vemos &#8220;o outro que \u00e9, de alguma forma, similar a n\u00f3s&#8221; passar por uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Por exemplo: quando vemos algu\u00e9m sorrindo e gargalhando, \u00e9 natural que fa\u00e7amos o mesmo. Quando vemos algu\u00e9m dar topada com o dedinho do p\u00e9 na quina e sentindo dor, a gente &#8220;sente&#8221; uma dor pr\u00f3xima. A alteridade n\u00e3o ocorre assim. Ela \u00e9 um processo cognitivo de reflex\u00e3o sobre a experi\u00eancia do outro. O processo ocorre com base nos repert\u00f3rios e aprendizados passados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dessa forma, entendemos que empatia gera alteridade: o aceitar e entender o outro, mesmo que suas ideias, ideais e opini\u00f5es sejam totalmente diferentes. Esse exerc\u00edcio da alteridade em pesquisa tem sido meu guia nessa jornada de trabalhar a antropologia no contexto de design e da inova\u00e7\u00e3o. Quando comecei a trabalhar com designers, ouvia sobre \u201cter empatia com o usu\u00e1rio\u201d, popularizado pela D.School com o famoso bord\u00e3o \u201cEMPATHY HAPPENS\u201d. Por um tempo achei que n\u00e3o tinha problema essa instru\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e operacional de \u201cvivenciar\u201d o cotidiano dos indiv\u00edduos in loco com a finalidade de gerar insights. Por\u00e9m, aos poucos, comecei a notar que alguns pesquisadores iam a campo sem abrir m\u00e3o de seus pr\u00f3prios par\u00e2metros.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cH\u00e1 uma lacuna cultural entre os designers instru\u00eddos\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400;\">e as pessoas nas ruas para as quais eles est\u00e3o tentando criar\u201d,\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400;\">Don Norman.<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estes pesquisadores acabavam propondo solu\u00e7\u00f5es que eram familiares a eles mesmos, sem perceber como a pessoa, para quem o projeto estava sendo desenhado, de fato realizava seu uso. Isso me incomodava, pois ouvi coisas do tipo \u201cn\u00e3o faz sentido (o indiv\u00edduo pesquisado) usar a interface assim\u201d, ou designers simplesmente inferindo como o outro usaria determinada fun\u00e7\u00e3o. Cada vez que me colocava a pensar sobre, me incomodava o pesquisador ir a campo \u201capenas\u201d experimentar as atividades pesquisadas, fazer fotos para relat\u00f3rio, ter alguns insights rasos e ir embora, sem entender os porqu\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 comum traduzirmos a express\u00e3o que vem do ingl\u00eas \u201cin your shoes\u201d como forma de exemplificar ou explicar empatia; colocar-se no lugar do outro, \u201cusar os teus sapatos\u201d. Foi com uma met\u00e1fora muito pr\u00f3xima desse contexto que meu inc\u00f4modo se fez claro. A explica\u00e7\u00e3o era a seguinte:\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">SIMPATIA: SENTIR-SE penalizado pela dor que o outro indiv\u00edduo sente ao usar tais sapatos.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">EMPATIA: \u00e9 uma pessoa USAR os sapatos de salto alto de algu\u00e9m por quil\u00f4metros e PERCEBER como \u00e9 desconfort\u00e1vel a experi\u00eancia.\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estabelecer alteridade significa perceber-se em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cjulgamento\u201d sobre os sapatos de salto, considerando que eles s\u00e3o desconfort\u00e1veis a partir do ponto de vista do pesquisador. Este ponto de vista pode divergir do entendimento do pesquisa<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">do, at\u00e9 porque com o uso frequente de sapatos de salto, os p\u00e9s podem se acostumar e deixar de doer. Por meio da alteridade, a pesquisa etnogr\u00e1fica se orienta ao entendimento dos MOTIVOS e RAZ\u00d5ES que fazem com que as pessoas usem ou n\u00e3o usem tais sapatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ou seja, a antropologia \u00e9 feita no entendimento da diferen\u00e7a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">entre<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> o meu universo cultural e o do outro. Sem estabelecer hierarquias e\/ou grada\u00e7\u00f5es, mas reconhecendo, entendendo e explicando o universo cultural do grupo pesquisado. Ao observar o cotidiano alheio, devo buscar explicar o que vejo pela \u00f3tica de quem est\u00e1 sendo observado. Mas, ainda assim, o pr\u00f3prio observado n\u00e3o sabe exatamente o que estou observando, ou seja, por meio de conversa e an\u00e1lise, juntos vamos construindo esse lugar do \u201centre\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas ainda \u00e9 preciso ir al\u00e9m, se quisermos realmente construir e estabelecer um processo de design inclusivo. Um primeiro e grande passo \u00e9 exercitar a pr\u00e1tica de um trabalho de campo com pesquisadores desprovidos de suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, vieses; evitando propostas de solu\u00e7\u00f5es que sejam familiares a eles mesmo. E um segundo e, talvez mais importante passo, seja garantir que um grupo diverso de pessoas e realidades fa\u00e7am parte do projeto; tanto do lado de quem pesquisa, quanto do lado pesquisado. Como bem sugere a jornalista Patr\u00edcia Gon\u00e7alves que integra o coletivo <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/uxparaminaspretas\/?hl=en\"><span style=\"font-weight: 400;\">UX para Minas Pretas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, fica o convite para \u201cbuscar diferentes grupos sociais para fazer parte do seu processo de pesquisa, da testagem das solu\u00e7\u00f5es criadas e melhor ainda, na composi\u00e7\u00e3o das equipes de profissionais\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">*<strong>Carol Zatorre<\/strong> \u00e9 antrop\u00f3loga, com experi\u00eancia em projetos de pesquisa em interface com equipes de design. Professora de Pesquisa em Design na P\u00f3s Design Centrado no Usu\u00e1rio na Universidade Positivo e tamb\u00e9m Professora de pesquisa no One Year Design do Instituto Europeo di Design. \u00c9 co-fundadora e atua, desde 2015, como head de pesquisa na Kyvo Design-Driven Innovation<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[EDIT]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nota de rodap\u00e9:<\/strong> Em nosso <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/posts\/kyvoinnovation_alteridade-para-um-design-inclusivo-por-activity-6694248700375515136-Iw2_\">linkedin<\/a>, o antrop\u00f3logo Cl\u00e1udio Leite, trouxe um belo ponto a ser considerado no trecho: &#8220;trabalho de campo com pesquisadores desprovidos de suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, vieses&#8221;.\u00a0 Esse trecho foi uma tentativa de dizer que temos que ir a campo sabendo que temos SIM vieses durante a pesquisa. Portanto, vale ressaltar que a ideia do texto como um todo \u00e9 dizer que a alteridade, diferente da empatia, \u00e9 um esfor\u00e7o metodol\u00f3gico de perceber o vi\u00e9s do pesquisador e o vi\u00e9s do pesquisado. Em um trabalho acad\u00eamico isso seria tratado em um cap\u00edtulo. No caso de nossas pesquisas, usamos esse elemento como material de an\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empatia \u00e9 palavra da moda, mas, como diria Bela Gil: \u201cvoc\u00ea j\u00e1 pensou em substituir empatia por alteridade? 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